Dinheiro é tempo. Tempo é dinheiro

Lucas Favaro
9 min readDec 25, 2021

1. Dinheiro é tempo

Quando eu digo que dinheiro é tempo, estou querendo ser quase literal. Não é metáfora. I mean it.

Você já parou para pensar que (quase) tudo que você consome você precisa antes investir tempo para fazê-lo? Quando você compra, por exemplo, um lanche, você está, por óbvio, trocando dinheiro por esse lanche. Mas então como você obteve esse dinheiro? Possivelmente, trabalhando.

Mas o trabalho é uma atividade que ocorre no tempo, de modo que, em última instância, você está trocando seu tempo pelo lanche. Claro, ocorrem trocas intermediárias pelo caminho, mas isso não refuta o raciocínio. O dinheiro é apenas um intermediário entre o tempo e o consumo de um bem ou serviço.

Isso, uma vez exposto, fica claro, mas imagino que muitas pessoas não conseguem fazer essa abstração, dado que estão imersas em um mundo moderno cuja divisão de trabalho as impedem de ver o todo do processo produtivo.

Para uma tribo caçadora-coletora conseguir consumir, seus membros precisam gastar tempo caçando animais ou coletando frutas e vegetais para comer, construíndo seus abrigos, enfim, sobrevivendo. Então fica claro, para alguém que observa o modo pelo qual essa tribo consegue sobreviver, que o consumo exige um esforço prévio que se desenrola no tempo.

O mesmo ocorre com as sociedades modernas — a única diferença é que, nesse caso, as pessoas, em grande medida, não consomem aquilo que elas mesmas produzem, mas sim o que outras produzem. Assim, elas conseguem desfrutar das maravilhas proporcionadas pela especialização produtiva. O dinheiro, dessa forma, é apenas um intermediário entre bens/serviços produzidos por diferentes pessoas.

Mas, novamente, para você obter dinheiro, você precisa gastar tempo em certa atividade produtiva. Dessa forma, dinheiro é tempo.

Existem algumas exceções para o raciocínio exposto acima. Isto é, existem algumas situações nas quais a obtenção de dinheiro não exige trabalho ao longo do tempo. Algumas dessas situações são as seguintes:

(i) Dependência financeira: situação na qual o consumo de bens por parte de uma pessoa não exige um esforço dela mesma, mas de outras pessoas. Assim, o tempo necessário para desfrutar o consumo é, digamos, terceirizado. O caso mais proeminente desse tipo de situação é a dependência das crianças em relação a seus pais.

(ii) Custo marginal zero ou “low hanging fruits: situação na qual a produção de um bem não exige trabalho, e portanto não exige tempo para produzi-lo. Um exemplo desse tipo de situação é quando há um bem disponível de maneira livre na natureza, como frutas acessíveis, por exemplo. Obviamente, com o tempo, esse tipo de bem tende a desaparecer, pois seu consumo acaba sendo maior do que sua reposição pela natureza (e isso leva a situações tais como a tragédia dos comuns, por exemplo).

(iii) Carona: situação na qual uma pessoa consome aquilo que foi produzida por outra sem o consentimento desta — e é exatamente isso que difere essa situação daquela exposta em (i).

(iv) Rentismo: situação na qual a pessoa recebe o rendimento gerado por um capital, e não por um trabalho. Assim, ela não precisa alocar tempo para produzir certo bem, pois o capital faz isso por ela. Não quero com isso dar um sentido pejorativo a essa atividade— como ocorre na maioria dos casos em que a palavra “rentismo” aparece — , apenas quero salientar que tal situação não exige o esforço do trabalho (e, portanto, não exige tempo de trabalho). Porém, em grande parte dos casos, as pessoas que adquiriram capital trabalharam antes para isso, pouparam uma fatia da sua produção, e então produziram ou compraram capital. Logo, o trabalho ocorreu previamente ao acúmulo de capital, e a partir daí o capital irá gerar rendimentos por si só, caso a pessoa saiba gerenciar devidamente os riscos associados aos investimentos.

Feita essa exposição do argumento de que dinheiro é tempo, além de algumas exceções a isso, vamos à segunda parte do texto.

2. Tempo é dinheiro

Talvez você tenha pensado, ao ler a primeira parte, que existe a seguinte falha no meu raciocínio: certos trabalhos geram mais renda ao indivíduo do que outros, então nem todo trabalho que ocorre em uma mesma unidade de tempo gera a mesma quantidade de dinheiro. Isso é óbvio e só o fato de observarmos que o salário/hora difere para diferentes profissões já confirma essa afirmação.

Ocorre que isso não é uma falha no raciocínio, mas um qualificador do mesmo. A qualificação é a seguinte: dinheiro é tempo, mas uma mesma quantidade de dinheiro pode ser obtida com tempos diferentes.

Disso concluímos que existem trabalhos mais produtivos que outros. Ou seja, existem trabalhos que geram mais bens de consumo do que outros — e isso equivale a dizer que, em uma economia de mercado, existem trabalhos que são mais valorizados pelas pessoas do que outros.

Tentando ser ainda mais claro: usar seu tempo para cavar um buraco e depois tapá-lo irá lhe render muito menos dinheiro (isso se render algum) do que se você usar esse mesmo tempo desenvolvendo um sofware para uma startup da Bay Area em uma cadeia produtiva altamente especializada.

Vamos construir um framework analítico para tentar estabelecer a relação entre tempo e trabalho. Como já dito, diferentes quantidades de dinheiro podem ser obtidas com uma mesma quantidade de tempo. Se você quiser ganhar mais dinheiro alocando seu tempo em certa atividade, tudo o mais constante, então você precisa alocar mais tempo para essa atividade. Ocorre que existe um teto, um upper bound, para a quantidade de tempo que você pode alocar para uma certa atividade. Esse teto é justamente as 24 horas que você possui no dia.

Todas as pessoas possuem a mesma quantidade de tempo no dia. Isso pode parecer papo de coach, mas não passa de um truísmo — e às vezes é preciso de um coach para lembrá-lo desse truísmo.

Assim, se você quiser consumir mais, isto é, ganhar mais dinheiro, você possui em mãos duas variáveis e uma constante: a variável quantidade de dinheiro recebida em uma mesma unidade de tempo, ou produtividade; a variável tempo do dia alocado para o trabalho; e a constante 24 horas de tempo em um dia.

Você quer maximizar o seu consumo de bens? Então, segundo o exposto acima, você deveria gastar 24 horas do seu dia trabalhando naquela atividade mais produtiva para você. Isso é loucura, não é? Claro, porque você não quer maximizar o seu consumo de bens: você quer maximizar o seu bem-estar.

O problema que você quer resolver, portanto, é o seguinte: você quer maximizar o seu bem-estar, e para isso você precisa alocar certa quantidade de tempo na sua atividade mais produtiva tal que o tempo gasto nessa atividade seja menor ou igual a 24 horas em um dia.

Tempo que você não aloca ao trabalho é, por definição, tempo que você aloca a lazer. Assim, existe um trade-off entre trabalho e lazer. Muitas pessoas que não entendem a teoria econômica (algumas das quais pensam entender) minimizam ou até menosprezam a observação do trade-off trabalho-lazer. Isso porque elas não entendem o que essa observação realmente quer dizer. Trabalho não necessariamente quer dizer trabalho remunerado, mas qualquer coisa que você, subjetivamente, considera como uma atividade custosa.

Por exemplo: suponha que você queira acender uma luz, pois não quer ficar no escuro. A não ser que acender luzes seja um hobby para você, uma atividade prazeroza, então o ato de acender a luz é uma atividade custosa. Subjetivamente você pesa na sua mente a situação de ficar em um ambiente claro, mas com o custo de acender a luz, versus a situação de ficar em um ambiente escuro e sem o trabalho de acender a luz. Você se depara, assim, na situação do trade-off trabalho-lazer.

Eu expus esse exemplo simples, e até tosco, para deixar claro que você pode estender a mesma análise para qualquer situação ao longo do seu dia: constantemente você se vê diante de escolhas sobre o que fazer com seu tempo, dados os custos e benefícios embutidos em cada escolha.

Devo usar os meus próximos dez minutos assistindo uma série ou vendo os stories do meu Instagram? Estudando ou comendo? Pulando corda ou ouvindo música? Essas perguntas são inexoráveis. Você terá que respondê-las mesmo que não queira e mesmo que não saiba que esteja as respondendo: o simples ato da passagem do tempo implica que você está, mediante ações, respondendo a pergunta fundamental de como alocar o seu tempo escasso.

Veja bem: você pode usar certo tempo para ler, dormir ou simplesmente não fazer nada, mas, enquanto você estiver vivo, não pode abrir mão de usar o tempo.

Se definirmos dinheiro como sendo o custo para realizar certa atividade ou desfrutar de certo bem, então concluímos que tempo é dinheiro, pois sempre que você realiza uma atividade, você está alocando tempo para a sua realização. Pode-se dizer que tempo é a moeda de troca mais pura que existe. Você pode abrir mão de ter certas moedas de troca entre trabalho e bens, porém nunca conseguirá abrir mão de ter a moeda de troca tempo — a única coisa que está ao seu alcance é decidir por o que você vai trocá-la.

Decidir como usar o seu tempo, portanto, é a decisão mais primordial da sua vida, porque você não pode abrir mão dessa escolha.

O imperativo do “deep work”

Um dos livros mais impactantes que eu li (ou melhor, ouvi) neste ano de 2021 foi o livro “Deep Work”, de Carl Newport. Nele, Newport fala sobre como e porque devemos buscar, enquanto estivermos trabalhando, a concentração máxima naquilo que estamos fazendo. Os argumentos do livro são ótimos, e ele é certamente um dos melhores livros de autoajuda já escritos.

Desde que eu ouvi o livro eu fui convencido por suas ideias centrais, mas achei que ainda faltava um ponto essencial aos argumentos expostos. Refletindo sobre, creio que consegui chegar a esse ponto essencial. Ele é o seguinte: deep work não é nada menos do que um dos “argumentos” da função do problema de maximização do bem-estar. Deixa eu colocar abaixo, novamente, qual é esse problema:

Você quer maximizar o seu bem-estar, e para isso você precisa alocar certa quantidade de tempo na sua atividade mais produtiva tal que o tempo gasto nessa atividade seja menor ou igual a 24 horas em um dia.

Ora, a sua atividade mais produtiva, ou a sua maior produtividade, é alcançada justamente somente se nela você aplica o deep work, isto é, o foco/esforço máximo. Se você quiser extrair a produção máxima, dada certa quantidade de tempo, então você precisa fazer o esforço máximo — então você precisar praticar o deep work.

E perceba que não estou falando da sua produtividade apenas no contexto da produção de bens, ou, se prefere, na obtenção de dinheiro. Estou falando de produtividade em qualquer atividade de trabalho que você vier a fazer — isto é, qualquer atividade que não seja lazer.

  • Se você quiser ter um corpo esteticamente agradável, você precisa fazer musculação. A filosofia do deep work diz que você precisa se concentrar e esforçar ao máximo no tempo alocado para essa atividade (não que você precisa alocar o máximo de tempo para ela). Caso contrário, você não extrairá sua produtividade máxima e não alcançará o bem-estar máximo, dadas as variáveis que você tem em mãos.
  • Se você quiser obter conhecimento, você precisa estudar. A filosofia do deep work diz que você precisa se concentrar e esforçar ao máximo no tempo alocado para essa atividade (não que você precisa alocar o máximo de tempo para ela). Caso contrário, você não extrairá sua produtividade máxima e não alcançará o bem-estar máximo, dadas as variáveis que você tem em mãos.
  • Se você quiser obter saúde, você precisa comer bem, fazer atividades físicas, etc. A filosofia do deep work diz que você precisa se concentrar e esforçar ao máximo no tempo alocado para essa atividade (não que você precisa alocar o máximo de tempo para ela). Caso contrário, você não extrairá sua produtividade máxima e não alcançará o bem-estar máximo, dadas as variáveis que você tem em mãos.

A filosofia do deep work provém do fato inescapável de que tempo é dinheiro. Ao desperdiçar seu tempo com atividades superficiais, você estará literalmente perdendo dinheiro, pois estará perdendo tempo.

Novamente: por atividades superficiais não quero dizer atividades de lazer. Você aloca 24 horas do seu dia entre trabalho e lazer, e se você quiser alocar 23 horas para lazer e 1 hora para trabalho, que seja, caso isso maximize o seu bem-estar.

O que você precisa fazer é, tão-somente, buscar a produtividade máxima no seu tempo de trabalho (seja ele o trabalho de ler, estudar, fazer atividade física, acender uma luz, trabalho remunerado, etc). Ou seja, ao invés de estudar olhando de 5 em 5 minutos para o celular para ver se possui notificações, estude de maneira focada, e deixe para olhar as notificações quando você estiver no seu tempo de lazer. Caso contrário, você estará fazendo as duas coisas de forma improdutiva, e terá, no fim, um menor bem-estar, pois se você não fizesse isso, você seria mais produtivo, o que equivale a dizer que obteria o mesmo dinheiro em menos tempo. Com mais tempo disponível, você poderia ter mais bens para consumir e/ou alocar mais tempo em lazer. Com mais dessas coisas, você aumentaria seu bem-estar.

O deep work é consequência do problema de maximização do bem-estar, que por sua vez é consequência do fato de que tempo é dinheiro. Não desperdice seu tempo.

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Lucas Favaro

Entusiasta do transumanismo, do altruísmo eficaz e do globalismo.